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Casa Museu de Arte Sacra da Ordem Terceira de Ovar

Exposição “DEVOÇÃO AOS SAGRADOS CORAÇÕES"

23 FEV – 30 JUN | Casa Museu de Arte Sacra da Ordem Terceira de Ovar


Devoção aos Sagrados Corações

Uma exposição evocativa do Sagrado Coração, surge no calendário das exposições temporárias da CMAS – Casa Museu de Arte Sacra da Ordem Terceira de Ovar, no ano de 2022, como a concretização de uma intenção do saudoso Pe. Manuel Pires Bastos, pároco de S. Cristóvão de Ovar por mais de quatro décadas, falecido a 8 de novembro de 2020.

Surgida a oportunidade de a efetivar, foi intenção concentrar as mais relevantes manifestações artísticas desta devoção no território ovarense, permitindo compreender, através de uma concisa seleção de peças, a formação, a importância e a afirmação deste culto no espaço e na evolução do tempo, paralelamente ao engrandecimento e valorização do património de Ovar.

Por outro lado, todo o processo teve presente uma premissa orientadora, e tantas vezes descorada: Tornar o Museu um espaço vivo, de encontro, mediador preferencial entre o fiel e o objeto de culto.

Neste território marcado pela existência de inúmeras confrarias, Irmandades e ordens religiosas, todas ou praticamente todas, sucumbidas à passagem do tempo e à laicização da sociedade, são de importante menção congregações religiosas cujo propósito concreto foi a veneração dos Sagrados Corações. Assim, exaltamos também a memória das extintas Irmandades do Sagrado Coração de Jesus, instituída na Capela de N.ª Sra. da Graça, em 1755, que se afirmou perante as pioneiras irmandades evocativas deste culto em Portugal, mas também a Arquiconfraria do Sagrado Coração de Maria (1858), sediada na Igreja Matriz de Ovar.

O Apostolado de Oração, chegado à Igreja Matriz de Ovar em 1878, e que rapidamente se irradia por todo o concelho: Válega (1878), Maceda (1879), Esmoriz (1882), S. Vicente de Pereira (1891), Arada (1901) e Cortegaça (1902)

E ainda a Confraria do Sagrado Coração de Maria, instalada em S. Vicente de Pereira em 1863, e que ainda hoje se mantem firme ao desígnio do tempo.


Contextualização histórica

Se é certo que os Sagrados Corações de Jesus e de Maria são hoje das mais notáveis e importantes devoções de todo o mundo cristão, não menos interessante será afirmar que esse sucesso é recente, acontecendo a partir de finais do século XVII, com a abnegada ação de Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), a monja francesa a quem Jesus terá aparecido variadas vezes, pedindo a particular devoção ao seu coração.

Será com esses acontecimentos que se dá uma extraordinária propagação do culto por todo o mundo católico, mediante um novo aspeto teológico, que não apaga, porém, as antigas representações e interpretações do Sagrado Coração, que concretizam um exemplo vivo das complexas viagens das formas entre os séculos, por vezes tão difíceis de explicar.

Porém, será justo compreender esta devoção apenas e só a partir da segunda metade do séc. XVII? É lógico que não! A devoção ao coração flamejante é tão antiga como a própria Igreja, e um exemplo fiel deste ideário são santos como Agostinho de Hipona (354-430), Bernardo de Claraval (1090-1153), o franciscano Boaventura (1221-1274) ou a dominicana Catarina de Siena (1347-1380), que já no seu tempo são elementos fulcrais na incrementação da devoção ao coração dilacerado de Cristo.

Assim, as bases deste culto são encontradas na Idade Média, intimamente ligada à devoção das Chagas de Cristo, mais tarde compreendida como a síntese da Paixão no Coração de Jesus. De uma forma mais expressiva, a partir do séc. XII, assiste-se a uma plena afirmação da prática da contemplação das Chagas, consolidando-se cada vez mais o conceito do amor de Jesus pela humanidade, e para a qual as ordens mendicantes um papel decisivo.

Consequentemente, serão já estes tempos férteis na conceção de exercícios de piedade na mística do Sagrado Coração, tendo também, num Portugal sensível às influências francesas, uma presença assídua, traduzida numa imensidão de soluções representativas, principalmente desde a última metade do séc. XVI.

No decurso de seiscentos, existe uma rápida disseminação desta devoção por todo o Ocidente, tendo evidentemente as aparições a Santa Margarida Maria um papel fundamental nesse estímulo, resultando num fervor pleno comprovado pelo acolhimento e proteção do culto por episcopados e soberanos, destacando-se no caso português, a rainha D. Maria I, uma eximia promotora desta devoção, atestada na determinação da construção daquela que viria a ser a primeira Basílica no mundo dedicada ao Coração de Jesus, a monumental Basílica da Estrela, em Lisboa, sagrada em 1789, ou ainda a causa da presença das insígnias do Coração de Jesus nas comendas das três Ordens portuguesas (Grã-Cruzes e Comendadores).

Em sentido contrário, encontramos a posição da Igreja de Roma, que durante muito tempo enfrentou a causa, dando-se apenas em 1765, a aprovação da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, com limitações, o que resultou num movimento transversal de reivindicação da permissão do culto, e cuja resposta final apenas viria a acontecer com Pio IX, em 1860, com a instituição do mesmo de forma universal.

Em 1844, é fundado em França o Apostolado da Oração, uma associação dinamizadora da devoção ao Coração de Jesus, que se estende a Portugal em 1864, ano da beatificação de Margarida Maria, alcançando este culto uma nova fase de expansão no nosso país, reafirmado pelos bispos portugueses em 1873, com a consagração das dioceses e a divulgação de frequentes pastorais de devoção ao Coração de Jesus.

Em 1900, Leão XIII, consagra o mundo ao Sagrado Coração.


Autoria: Ricardo Pinho

Mestrando em História da Arte, Património e Cultura Visual, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto


A Casa Museu de Arte Sacra da Ordem Terceira de Ovar, trata-se de uma realidade existente no nosso território desde 1973. Todavia, existe, na atual localização, desde 1780, como um espaço destinado à recolha dos bens da irmandade que a tutela, a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco.
Com o passar do tempo, tornou-se o principal ponto de depósito da cidade, reunindo objetos e bens datáveis entre o séc. XV e XX.

Esta exposição é a expressão do trabalho dedicado da Ordem Terceira de Ovar, alicerçado no trabalho de investigação e curadoria do jovem ovarense Ricardo Pinho, Mestrando em História da Arte, Património e Cultura Visual, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que contou com a orientação e o apoio do Padre Victor Pacheco, nosso Vigário e Pároco de S. Cristóvão, os párocos e contributo de muitas instituições do nosso concelho.


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